Quando mãos inquietas
-as minhas-
só encontram sossego
na concha das tuas.
Um blog que deverá ser sobre a vida, a casa nova, o casamento, as viagens e o que vier. Um pouco mais de Diário, um pouco menos de textos insones. A menos que dê insônia. ;)
sábado, 28 de junho de 2008
quarta-feira, 21 de maio de 2008
Vã Cartografia
Soltas as amarras, parte a escuna.
Estamos em pleno mar.
Não há carta de navegação,
não há rimas para cantar.
Tampouco cerração
ou bruma.
Mas há!
E pensar que até outro dia, desenhava mapas de terras inexistentes.
Estamos em pleno mar.
Não há carta de navegação,
não há rimas para cantar.
Tampouco cerração
ou bruma.
Mas há!
E pensar que até outro dia, desenhava mapas de terras inexistentes.
domingo, 18 de maio de 2008
18.05.08
Afetou um ar distraído quando o notou.
Fez que não viu, caminhou sem pressa, voltou a cabeça. Por entre as árvores à beira da estrada, um olhar acompanhava seus passos.
Sorriu mais para si mesma que para o olhos, lembrou de janelas, ventos e flores, de lago e palácio - ainda tão próximos, que podia avistar as torres lá atrás. Tomou a direção do mar.
Entre água e céu, aspirou a liberdade que vinha cultivando anos a fio. Amava-a. Era sua.
Presa.
Presa da liberdade, pensou. Como um inseto.
A alguns passos, o olhar.
Disposto a soltar-lhe amarras.
Fez que não viu, caminhou sem pressa, voltou a cabeça. Por entre as árvores à beira da estrada, um olhar acompanhava seus passos.
Sorriu mais para si mesma que para o olhos, lembrou de janelas, ventos e flores, de lago e palácio - ainda tão próximos, que podia avistar as torres lá atrás. Tomou a direção do mar.
Entre água e céu, aspirou a liberdade que vinha cultivando anos a fio. Amava-a. Era sua.
Presa.
Presa da liberdade, pensou. Como um inseto.
A alguns passos, o olhar.
Disposto a soltar-lhe amarras.
sexta-feira, 25 de abril de 2008
Ele toca!
-É seu irmão que está na peça que vc falou, né?
[Sorrindo, entusiasmada:] -É, é sim!
-O que ele faz mesmo, na peça?
[Orgulhosa:] -Ah, ele toca! Toca flauta, oboé e...
- Mas ele não é ninguém, não?
[Hesitante:] -Ele é músico, ele toca.
- Mas ele aparece lá?
[Desconfiada:] - Humm, dá pra ver, está do lado direito, perto da cortina...
-Ah, mas então ele só toca?!
[Perplexa:] - Sim. Ele toca!
-Ah, bom. Pensei q ele fizesse parte.
[Com intensidade:] ...
(Baseado em fatos reais)
---------------------------------------------------------
E já que toquei no assunto, não custa nada avisar pelo blog tbm. =P
Meu irmão está sim, tocando, num musical baseado no conto "Um Homem Célebre", de Machado de Assis. É a história de um compositor que passa a vida escrevendo polcas. Apesar do sucesso, ele se aborrece por ñ ser capaz de escrever algo grandioso como Mozart, Chopin, Bach! E aflito, tenta encontrar-se com a mesma Musa Inspiradora dos grandes gênios.
O conto é ótimo, machadianamente irônico, sério, profundo e divertido. Mais não conto, pq pode ser lido aqui mesmo, se houver interesse.
Logo de início, fiquei surpresa com a idéia de ouvir Machado cantado. E curiosamente, a adaptação para o teatro conseguiu traduzir o falar machadiano para os palcos, mudando apenas aqui e ali algumas coisas, de forma a dialogar claramente com o público. Wladimir Pinheiro, que escreveu a peça e as músicas, soube manter diálogos mais marcantes do conto, manteve palavras do escritor, manteve a graça, a ironia e a profundidade, manteve a essência de Machado. Mais: conseguiu fazer Machado dançar e cantar modinhas, polcas, samba e até algumas notas de ópera!
Assisti hoje e, embora eu seja em geral, muito chata com adaptações, gostei dessa. A crítica e análise da alma humana, tão bem feitas por Machado, estão presentes na peça de forma bastante explícita. Talvez explícita demais, mas vá, é teatro! E os artistas estão todos muito bem entrosados (fato constatado hj à noite, após a peça, numa mesa de bar, hehe), têm vozes gostosas de se ouvir (sim, é um musical e eles cantam a peça toooda!), dançam lindamente, e nos fazem dar muitas e boas risadas - é uma comédia musical, cheguei a dizer?
Os músicos... Se eles aparecem?!
Perdido entre a bateria, o contrabaixo, o teclado, o violino (ai, quem eu esqueci?!), há um oboísta-flautista no canto direito, quase atrás da cortina. Ele aparece, sim, na peça, se vcs olharem para lá! O som aparece tbm e nem precisa olhar para o palco, basta ouvir. Oras!
Fui uma vez, pretendo ir outras mais. Está no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), de quarta a domingo, às 19:30. Até junho!
Quem for, me avise! :)
[Sorrindo, entusiasmada:] -É, é sim!
-O que ele faz mesmo, na peça?
[Orgulhosa:] -Ah, ele toca! Toca flauta, oboé e...
- Mas ele não é ninguém, não?
[Hesitante:] -Ele é músico, ele toca.
- Mas ele aparece lá?
[Desconfiada:] - Humm, dá pra ver, está do lado direito, perto da cortina...
-Ah, mas então ele só toca?!
[Perplexa:] - Sim. Ele toca!
-Ah, bom. Pensei q ele fizesse parte.
[Com intensidade:] ...
(Baseado em fatos reais)
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E já que toquei no assunto, não custa nada avisar pelo blog tbm. =P
Meu irmão está sim, tocando, num musical baseado no conto "Um Homem Célebre", de Machado de Assis. É a história de um compositor que passa a vida escrevendo polcas. Apesar do sucesso, ele se aborrece por ñ ser capaz de escrever algo grandioso como Mozart, Chopin, Bach! E aflito, tenta encontrar-se com a mesma Musa Inspiradora dos grandes gênios.
O conto é ótimo, machadianamente irônico, sério, profundo e divertido. Mais não conto, pq pode ser lido aqui mesmo, se houver interesse.
Logo de início, fiquei surpresa com a idéia de ouvir Machado cantado. E curiosamente, a adaptação para o teatro conseguiu traduzir o falar machadiano para os palcos, mudando apenas aqui e ali algumas coisas, de forma a dialogar claramente com o público. Wladimir Pinheiro, que escreveu a peça e as músicas, soube manter diálogos mais marcantes do conto, manteve palavras do escritor, manteve a graça, a ironia e a profundidade, manteve a essência de Machado. Mais: conseguiu fazer Machado dançar e cantar modinhas, polcas, samba e até algumas notas de ópera!
Assisti hoje e, embora eu seja em geral, muito chata com adaptações, gostei dessa. A crítica e análise da alma humana, tão bem feitas por Machado, estão presentes na peça de forma bastante explícita. Talvez explícita demais, mas vá, é teatro! E os artistas estão todos muito bem entrosados (fato constatado hj à noite, após a peça, numa mesa de bar, hehe), têm vozes gostosas de se ouvir (sim, é um musical e eles cantam a peça toooda!), dançam lindamente, e nos fazem dar muitas e boas risadas - é uma comédia musical, cheguei a dizer?
Os músicos... Se eles aparecem?!
Perdido entre a bateria, o contrabaixo, o teclado, o violino (ai, quem eu esqueci?!), há um oboísta-flautista no canto direito, quase atrás da cortina. Ele aparece, sim, na peça, se vcs olharem para lá! O som aparece tbm e nem precisa olhar para o palco, basta ouvir. Oras!
E como se o som de tão ilustre oboísta não bastasse, o elenco conta com a presença de Suely Franco e tem direção de Pedro Paulo Rangel. Vale a pena conferir, mesmo!
Muitos aplausos, portanto, para os artistas - os que aparecem, os que ñ aparecem, os que tocam e os que não tocam, os que desenharam o figurino (ai, tão lindo!) , os que acendem as luzes da ribalta e os que, por exemplo, apenas escreveram o roteiro, as músicas e os diálogos... ;)Fui uma vez, pretendo ir outras mais. Está no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), de quarta a domingo, às 19:30. Até junho!
Quem for, me avise! :)
sábado, 5 de abril de 2008
Em branco
Faz já muito tempo - e o que se escreve aconteceu sempre há muito tempo.
Mas tudo, tudo
foi aquela pequena flor
que colhida das ramagens, num gesto que parecia ser carinho,
numa tarde que parecia ser de sol,
num dia que parecia ser o mais lindo,
num parecer que tanto parecia,
veio parar nestas páginas escondidas.
E onde já se viu ficar escrevendo em flor em branco?
Mas tudo, tudo
foi aquela pequena flor
que colhida das ramagens, num gesto que parecia ser carinho,
numa tarde que parecia ser de sol,
num dia que parecia ser o mais lindo,
num parecer que tanto parecia,
veio parar nestas páginas escondidas.
E onde já se viu ficar escrevendo em flor em branco?
domingo, 23 de março de 2008
Feliz Páscoa!
As crianças passavam a Semana Santa observando o movimento dos ovos que chegavam. Era a mãe, vinda do supermercado, a sacola cheia de ovos de chocolates. O pai que trazia e levava caixas de bombons para o trabalho. A madrinha que aparecia, depois de tanto tempo, com um beijo e um chocolate para cada um. E vovó com os coelhinhos. E tios e primos e amigos e chocolates.
E a grande cristaleira de madeira, no meio da sala, cada vez maior e mais gorda.
As crianças esqueciam dos brinquedos e sentavam-se diante dela. Acompanhavam, maravilhados, o milagre dos chocolates que chegavam continuamente.
-Um, dois, três...
-Tem mais um aqui.
-Mamãe pôs mais um hj à tarde.
E contavam e recontavam chocolates. A chave guardada no bolso da mãe, os olhinhos doces implorando em silêncio.
Não tinham permissão para provar nem unzinho antes da Páscoa. Na Semana Santa não havia cristão que convencesse mamãe a liberar chocolates. Não, meus filhos! Jesus morreu na Cruz por nós!
E as crianças observavam a enorme cristaleira no meio da sala e perguntavam-se pq é q Jesus foi morrer justo na semana em que chegavam os chocolates. Lá fora, o som da matraca, trac-trac-trac, vigiava severamente as crianças.
E se não fosse o silêncio e se não fosse a matraca e se não fosse o milagre dos ovos que chegavam e o pequeno sacrifício de apenas observá-los dentro da cristaleira, as crianças provavelmente jamais lembrariam do sublime milagre de um Deus que, todos os dias, oferece-se em sacrifício.
Até que a matraca cessa.
Até que se acendem as velas na igreja escura.
Até que o coral entoa Aleluias.
E mamãe entrega a chave ao menino mais velho. E abre-se a porta.
-Aleluia! Nosso Senhor ressuscitou!- uma a uma, as crianças repetem a frase cuidadosamente ensinada pelo pai.
-Verdadeiramente ressuscitou!- responde o menino mais velho, uma, duas, três vezes, entregando os ovos aos irmãos, orgulhoso de sua responsabilidade.
E aquela cristaleira, vazia como o sepulcro de Nosso Senhor ressuscitado, ensinava às criancinhas a verdadeira alegria da Páscoa.
E a grande cristaleira de madeira, no meio da sala, cada vez maior e mais gorda.
As crianças esqueciam dos brinquedos e sentavam-se diante dela. Acompanhavam, maravilhados, o milagre dos chocolates que chegavam continuamente.
-Um, dois, três...
-Tem mais um aqui.
-Mamãe pôs mais um hj à tarde.
E contavam e recontavam chocolates. A chave guardada no bolso da mãe, os olhinhos doces implorando em silêncio.
Não tinham permissão para provar nem unzinho antes da Páscoa. Na Semana Santa não havia cristão que convencesse mamãe a liberar chocolates. Não, meus filhos! Jesus morreu na Cruz por nós!
E as crianças observavam a enorme cristaleira no meio da sala e perguntavam-se pq é q Jesus foi morrer justo na semana em que chegavam os chocolates. Lá fora, o som da matraca, trac-trac-trac, vigiava severamente as crianças.
E se não fosse o silêncio e se não fosse a matraca e se não fosse o milagre dos ovos que chegavam e o pequeno sacrifício de apenas observá-los dentro da cristaleira, as crianças provavelmente jamais lembrariam do sublime milagre de um Deus que, todos os dias, oferece-se em sacrifício.
Até que a matraca cessa.
Até que se acendem as velas na igreja escura.
Até que o coral entoa Aleluias.
E mamãe entrega a chave ao menino mais velho. E abre-se a porta.
-Aleluia! Nosso Senhor ressuscitou!- uma a uma, as crianças repetem a frase cuidadosamente ensinada pelo pai.
-Verdadeiramente ressuscitou!- responde o menino mais velho, uma, duas, três vezes, entregando os ovos aos irmãos, orgulhoso de sua responsabilidade.
E aquela cristaleira, vazia como o sepulcro de Nosso Senhor ressuscitado, ensinava às criancinhas a verdadeira alegria da Páscoa.
sexta-feira, 14 de março de 2008
Fernando Pessoa
E oras vejam, achei um Pessoa que me cabe muito bem nesta semana...

Poema
Fernando Pessoa
O céu, azul de luz quieta.
As ondas brandas a quebrar,
Na praia lúcida e completa -
pontas de dedos a brincar.
No piano anônimo da praia
Tocam nenhuma melodia
De cujo ritmo por fim saia
Todo sentido deste dia.
Que bom, se isto satisfizesse!
Que certo, se eu pudesse crer
Que esse mar e essas ondas e esse
Céu têm vida e têm ser.
(em Mensagem, ed. Nova Fronteira)
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